sábado, 22 de julho de 2017

POEMA AO COMPUTADOR


Oh, meu bento computador,
quanto me trazes em repouso e equilíbrio
com a destreza das tuas funções automáticas
a tua precisa formatação do espaço e seus limites,
a correcção ortográfica das minhas falhas!

Quanto sustentas a minha serenidade
quando corro os dedos pelos teus sentidos,
substituindo o quartzo já gasto da minha memória
pela eficácia dos teus atributos,
pelo tacto dos teus arranjos algébricos
para os ecos da palavra
e do suor das cinzas dos meus versos!

Meu bento computador
quanto bendigo os teus gestos de luz e cores
e o leque das tuas opções adequadas,
nas tons que imprimes no écran dos meus olhos,
na harmonia com que reescreves o acervo
das mil loucuras que trago debaixo das veias,
ou no exercício tecnológico da sintaxe,
que estendes pelas páginas já abertas!

Tens o dom de inserir estilos de impressão
nos meus devaneios léxicos, prosaicos
suaves como águas que se enxugam nas areias do chão,
silêncios que arquivo no teu sistema de ficheiros
invioláveis, por meu capricho e teu zelo sereno
na minha vontade e meus caprichos perecíveis.

És a continuação da obra 
feita formosura no espaço da página
e nunca me desvias do caminho aberto
com que suponho a arquitectura irregular
dum círculo de palavras, ou dum ciclo de sons
onde inscrevo as minhas dores irreveladas
que ciosamente escondes de olhos estrangeiros,
só acessíveis a quem saiba a palavra-
-passe
da morte adiada programada
da minha vida.


domingo, 16 de julho de 2017

O EDIFÍCIO


O edifício das palavras,
o projecto inerente à ideia
e aos degraus da leitura

o processo linear dos sons
e dos afectos

um pouco de embriagues
para questionar as sombras e a luz

eis a explosão programada
do poema

o agitar dos mistérios
no desassossego e na emoção
de dizer o indizível


à luz do dia.

terça-feira, 11 de julho de 2017

O vento não pára


O vento não pára.

Nem param as ondulações do tempo,
a assimetria luminosa
das cores.

A vida corre ao sabor destas divagações
da água,
em redemoinhos dum vento 
que vem de longe,
doutros sismos da Terra
- a ciência fulgurante do Sol.

Nós
apenas partilhamos o lenho cósmico,
melódico reflexo dos seus acordes
e do acaso. 

O ocaso.

terça-feira, 4 de julho de 2017

ARTES MÁGICAS

Por artes mágicas
e outras lógicas
nos rigores do mar
nas velas brancas
como espuma de ar
derribando os continentes
e as ilhas
por onde andei

nas noites e nos dias
me aventurei
ao interior dos vulcões
e vi
nas noites do sonho
e utopia,
a lua clara

em pleno dia.