segunda-feira, 26 de junho de 2017

ROSAS E ESTRELAS

               A rose 
               is a rose

               Gertrude Stein

                                                          

            Rosas são rosas, no dizer britânico.

            Ela disse rosas. Eu digo estrelas.
            E céus e átomos e neutrinos
            e o protoplasma que deu cor ao perfume das rosas
            e ao ser pensante que pensou sobre o próprio pensamento
            e ao feixe hertziano que há-de pairar
            sobre todas as cabeças de todos os seres pensantes,
            em todos os céus e todos os universos.

            Digo estrelas porque as estrelas também florescem
            e morrem
            como as rosas se acendem numa fragrância de cores
            e fenecem
            perdurando na memória do ser-pensante,
            ele próprio pó das estrelas, átomos e neutrinos
            como um deus eterno e distraído
            na solidão para sempre eterna e distraída.



domingo, 11 de junho de 2017

ESTA RUA


Fonte de sabedoria é esta rua.

A pedra gasta.

O umbral da porta velha
de ruínas e (de)lírios.

O lancil direito à luz
onde se abriga a sombra

a pronunciar um adeus

aos lírios e aos silêncios.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

IMAGINO

f
Imagino uma folha de papel branco,
uma ideia de horizonte
para as fronteiras da luz,
a margem vigilante       
da utopia.

A ideia assume-se
no espaço da página,
em promessa indizível
incendeia-se.

A palavra floresce
a metáfora nua
dentro dum casulo de memórias
de pele verdadeira.

É infinita
no círculo das águas,
na precária transição
para o real,
o quotidiano inconsciente.

Tanto recobre os interstícios
da página
como se sobrepõe ao vazio do espaço,
na cor neutra do vidro.

Uma página em branco
É
o lugar do amor
o lugar
duma impressãozinha vegetal
na parte de fora da alma,
junto aos muros do sangue

bruma branca de reminiscências
as mais interiores   encobertas
as mais pardas   fundas

Sobre a página se desenha a corda
entrelaçada,
linhas curvas vergam para além
dos limites do chão,
transcendem a própria ideia de espaço,
voam até ao princípio
da luz
que ainda brilha nas praias
da inocência.

A ideia pressupõe um inventário
de cores virtuais,
arestas que se dissolvem
nos poros da matéria
onde se inscreve o espaço
do contexto.

É enorme o seu campo,
o verdete azul
das vozes pronunciadas
que disseram um caminho exangue
sobre as ondulações do tempo

para que seja possível regressar
à pureza dos dias intermináveis
em aliança com o infinito,
ao marfim dos olhos livres
nas sebes da paisagem –

provável conhecedora dos ecos
repetitivos do tempo


na palavra do poeta.